
Depois da conclusão das obras dos
Passos da Paixão, Aleijadinho e seu atelier iniciaram a execução dos 12 Profetas
no adro da Igreja do Senhor Bom Jesus. De 1800 a 1805, Aleijadinho deixou aqui,
nas imagens esculpidas em pedra-sabão, a marca de seu gênio. A série de Profetas
de Congonhas é uma das mais completas da iconografia cristã ocidental. As
estátuas, espalhadas no adro do Santuário, em admirável simetria, ao longo das
esplanadas de níveis diferentes, formam um conjunto grandioso e impressionante.
Apoiando-se sobre um pedestal de 20cm de altura, cada um sustenta uma cartela
com inscrição em latim extraída do Antigo Testamento.
Profeta Isaías
“ Cum Seraphin Dominum celebrassent, a Seraphuno Admota est
labris, forcipe, pruna meis.” C 6.
“Depois que os Serafins celebraram o Senhor, um deles trouxe aos meus lábios uma
brasa com uma tenaz.”
O mais importante profeta do Antigo Testamento , Isaías, abre a série de
honra na entrada da escadaria do lado esquerdo do Santuário.
O profeta Isaías, esculpido por Aleijadinho, tem o tipo físico de um
personagem de idade avançada, barbas e cabelos abundantes. Veste uma túnica
curta, que deixa descoberta a parte inferior das pernas calçadas de botas, sobre
a qual se acha jogado um amplo manto. Segura o filactério com a mão esquerda,
enquanto a direita aponta para o texto nele inscrito.
A estátua de Isaías apresenta erros anatômicos de grande evidência, como a
desproporção entre as partes superior e inferior do corpo, a estreiteza dos
ombros, braços rígidos e curtos. Apesar de trazer a marca da interferência do
"atelier", a expressão da cabeça de Isaías não é outra senão aquela criada pelo
gênio de Aleijadinho. A verdadeira expressão de um iluminado diante de uma
visão, constituindo-se em uma das mais importantes peças de todo o conjunto
arquitetônico
Profeta Jeremias
“Defleo Iudaeae cladem, Solymaeque ruinam: Ad Dominumque
velint, quaeso, redire suum.” - C 35.
“Eu choro o desastre da Judéia e a ruína de Jerusalém: e rogo ao meu povo que
volte para o seu Senhor.”
Ocupando também posição de destaque na entrada da
escadaria, à direita de Isaías, encontra-se o Profeta Jeremias, autor do segundo
dos livros proféticos na ordem do Cânon bíblico.
O tipo físico do Profeta Jeremias, esculpido por Aleijadino, é o de um homem
de meia idade, com bigodes longos nas laterais da boca e a barba curta, composta
de rolos frisados, à moda bizantina. Veste túnica curta, que deixa à mostra a
perna esquerda, e manto levantado sobre o ombro direito, caindo até os pés na
parte superior. Segura o filactério com a mão direita e, na esquerda, uma pena.
Na cabeça, ostenta um magnífico turbante, arrematado por abas torcidas passando
entre as presilhas.
Do ponto de vista anatômico, essa estátua apresenta deformidades.
Entretanto, apesar dos defeitos observados, nota-se a intervenção de Aleijadinho
na execução da cabeça, onde, sem dúvida, se concentra toda a força real da
imagem
Profeta Baruc
“Adventum Christi in carne, postremaque mundi, Tempora
praedico, praemoneoque pios.” - C 1.
“Eu predigo a vinda de Cristo na carne e os últimos tempos do mundo, e admoesto
os piedosos.”
Apesar de não integrar a série dos profetas do Antigo
Testamento, a inclusão de Baruc no conjunto estatuário de Congonhas justifica-se
pelo seu destaque na ordem do Cânon bíblico.
Baruc traz nas mãos um filactério cuja citação é uma síntese de várias
passagens de suas profecias.
A escultura, situada no pedestal que arremata o muro de alinhamento central
do adro, representa um personagem jovem e imberbe, vestido de túnica curta e
manto, calçando botas. Traz na cabeça um turbante com bordas decoradas
semelhantes às do Profeta Jeremias.
Uma das mãos sustenta as pregas do manto, enquanto a outra segura o
filactério. A peça, de proporções atarracadas e erros anatômicos evidentes, é
uma das mais fracas do conjunto. A força da imagem, entretetanto, vem da
expressão do rosto, parte executada por Aleijadinho.
Profeta Ezequiel
“Quatuor in mediis describo animalia flammis Horribilesque
rotas, aethereumque Thronum.” - C 1.
“Eu descrevo os quatro animais no meio das chamas e as rodas horríveis e o trono
etéreo.”
Do lado oposto a Baruc, no pedestal que arremata o
muro de alinhamento central do adro, encontra-se Ezequiel, também conhecido como
o "profeta do exílio", por ter sido banido para a Babilônia com o povo de
Israel.
A inscrição do filactério traduz a síntese de três etapas sucessivas da
visão do profeta: primeiramente, aparecem-lhe quatro animais alados de quatro
faces cada um, em seguida, as quatro rodas de um carro de fogo sustentando um
trono de safira e, finalmente, sobre esse trono, o próprio Deus de Israel.
O tipo fisionômico de Ezequiel é o mesmo de Jeremias. Usa bigodes e barba
curta, seccionada em dois rolos frisados e cabelos longos caindo sobre a nuca.
Ao invés da túnica curta, o Profeta veste uma túnica longa e cintada, que deixa
a descoberto apenas a ponta do pé direito, Em lugar do turbante, Ezequiel traz
na cabeça um barrete com viseira presa por um laço acima da nuca. Recobrindo
toda a parte posterior da imagem, o manto é magnificamente decorado por uma
barra com desenho de volutas entrelaçadas.
A escultura não parece ter sofrido intervenção do atelier. Sua grande força
de expressão revela cuidados particulares de Aleijadinho em sua execução. Além
da impressionante expressão da cabeça, destaca-se também a significativa flexão
do braço direito
Profeta Daniel
“Spelaeo inclusus (sic rege jubente) leonum, Numinis auxilio,
liberor incolumis.” - C 6.
“Encerrado na cova dos leões por ordem (ou segundo a ordem) do rei, sou
libertado, incólume, com o auxílio do (meu) Deus.”
À esquerda, ladeando a passagem para a entrada do adro, em frente a Oséias,
encontra-se a estátua de Daniel. O confronto do quarto dos profetas maiores e do
primeiro dos menores, nessa situação privilegiada, revela, mais uma vez, um
projeto iconográfico preciso para as posições das estátuas no adro.
Os traços fisionômicos da escultura mostram um jovem imberbe como Baruc e
Abdias. Entretanto, a fisionomia de Daniel difere da deles, pelo recorte
especial dos olhos, a boca e o nariz longo, de narinas fortemente sulcadas,
revelando em seu conjunto uma expressão altaneira e distante, própria de um
herói cônscio de sua força. A coroa de louros que decora a mitra da cabeça
acentua essse aspecto e é uma alusão evidente à vitória sobre os leões. Como
Ezequiel, Daniel veste uma túnica longa, presa na cintura por uma faixa abotoada
no colarinho.
Nessa escultura, parece que Aleijadinho dispensou qualquer colaboração de
seus auxiliares. Trata-se da estátua de maior dimensão de todo o conjunto e,
apesar disso, a peça é monolítica e particularmente bem executada, revelando,
sem dúvida, a marca do gênio de Aleijadinho.
Profeta Oséias
“Accipe adulteram, ait Dominus mihi: id exsequor: illa, Facta
uxor, proles concipit, atque parit.” - C 1.
“Toma a adúltera, disse-me o Senhor: Faço-o: ela, tornando-se minha esposa,
concebe e dá-me filhos.”
O mais importante dos profetas menores, Oséias, ocupa
no Santuário lugar sobre o pedestal que arremata o parapeito de entrada do adro.
Oséias, assim como Ezequiel e Jeremias, veste um casaco curto, abotoado da
gola à barra e preso na cintura por uma faixa. A cabeça é coberta por um barrete
semelhante ao de Ezequiel. Calça botas tipo borzeguins e tem na mão direita uma
pena, cuja ponta, apoiada sobre a barra do manto, reproduz uma atitude de quem
está escrevendo.
A anatomia da escultura é correta, apesar da discrepância entre o
comprimento dos dois braços.
Profeta Joel
“Explico Iudaeae quid terrae eruca, locusta, Bruchus, rubigo
sint paritura mali.” - C 1 - v. 4.
“Exponho à Judéia qual o mal que trarão à terra a lagarta, o gafanhoto, o brugo
e a alforra (ferrugem).”
Joel, o segundo dos profetas menores do cânon
bíblico, ocupa seu lugar no adro à direita de Oséias, na junção do parapeito de
entrada do adro e da parede interna lateral.
A fisionomia da escultura, assim como a de Jeremias, Ezequiel e Oséias, é de
um personagem viril, de barba e bigodes em rolos à moda bizantina. A roupagem é
semelhante à de Oséias, sendo a gola substituída por um colarinho alto. Joel
traz à cabeça o mesmo modelo de turbante com abas retorcidas, já utilizado em
Jeremias e Baruc.
A estátua praticamente não revela imperfeições anatômicas. É uma das mais
vigorosas de todo o conjunto e sua força de expressão revela a atenção de
Aleijadinho em grande parte de sua execução.
Profeta Abdias
“Vos ego Idumaeos et gentes arguo. Vobis Nuntio luctificum,
providus interitum.” - C 1.
“Eu vos argúo, ó Idumeus e gentios. Anuncio--vos e vos prevejo pranto e
destruição.”
Abdias ocupa o ponto inferior do adro que une os
muros dianteiros e lateral esquerdo no adro do Santuário.
A fisionomia de Abdias é de um jovem imberbe, assim como Baruc, Daniel e
Amós, mas as proporções bem mais esbeltas dão a impressão de uma maior
juventude. Abdias veste túnica e manto como os apóstolos da ceia, complementado
apenas por um gorro simples, mas o arranjo das pregas é muito bem organizado num
jogo erudito de luz e sombra.
Essa estátua pode ser analisada comparativamente à do profeta Habacuc, que
ocupa posição equivalente no extremo oposto do adro. Exercendo visualmente a
função de baluartes laterais do adro, Abdias e Habacuc têm a mesma atitude
simétrica dos braços levantados para o alto, mesmo tipo de roupagem, assim como
jogo aparentemente complicado dos panejamentos. Pela posição que ocupam, ambas
estátuas receberam especial cuidado de Aleijadinho, sendo provável que a
intervenção do "atelier" se tenha limitado ao acabamento das partes accessórias,
uma vez que as imagens são anatomicamente perfeitas.
Profeta Amós
“Primo equidem pastor, factusque deinde propheta, In vaccas
pingues invehor et proceres.” - C 1.
“Primeiramente, pastor, tornando-me depois profeta, anuncio os juízos de Deus
contra as vacas gordas e os chefes de Israel.”
No ponto extremo do adro, à esquerda, na parte
superior do arco de circunferência que une os muros extremos dianteiro e
laterais do Santuário, encontra-se a estátua do Profeta Amós.
Amós difere totalmente dos demais profetas do conjunto e essa diferença se
faz notar tanto no tipo físico, quanto na indumentária. Seu rosto largo e
imberbe tem a expressão calma, quase bonachona, como convém a um homem do campo.
Suas vestes condizem com a sua condição de pastor. Amós está vestido com uma
espécie de casaco debruado de pele de carneiro e traz na cabeça um gorro, de
forma semelhante ao que usam ainda hoje os camponeses portugueses da região.
Dada a grande altura do muro em que está colocada, a escultura parece ter
sido concebida para ser vista pelo lado esquerdo, já que o lado direito dela
apresenta deformações, como, por exemplo, a omissão da perna da calça deste
lado. Como a estátua de Daniel, é uma peça praticamente monolítica, com apenas
uma pequena emenda na parte superior do gorro.
Profeta Jonas
“A ceto absorptus lateo noctesque, diesque Tres ventre in
piscis: tum Niniven venio.” - C 2.
“Engolido por uma baleia, permaneço três dias e três noites no seu ventre;
depois venho a Nínive.”
Ocupando posição simétrica à de Joel, no ponto de
encontro dos muros que formam o parapeito de entrada do adro à esquerda,
encontra-se a estátua de Jonas. Para o mais popular dos profetas menores,
Aleijadinho reservou lugar de destaque, colocando-o junto de Daniel.
A estátua de Jonas repete o mesmo padrão tipográfico já anteriormente usado
para as imagens de Jeremias, Ezequiel, Oséias e Joel. Sua fisionomia,
entretanto, apresenta traços distintos, como a boca entreaberta com os dentes
aparentes e a cabeça voltada para o alto. O vestuário de Jonas se compõe de uma
espécie de batina, com colarinho, abotoada até a citura, onde é presa com uma
faixa. O profeta traz também um manto jogado sobre o ombro esquerdo e o habitual
turbante em forma de mitra, com abas retorcidas.
A estátua parece ter recebido de Aleijadinho o mesmo cuidado especial
dispensado a Daniel. Não se nota qualquer traço indicador da intervenção do
"atelier". Acham-se reunidos nessa peça dois aspectos essenciais de seu gênio
criador: a capacidade de expressão dramática que caracteriza a visão frontal da
estátua e o ornamento visível na parte posterior, onde a silhueta sinuosa da
baleia, com cauda e barbatanas, parece emergir de um chafariz rococó.
Profeta Habacuc
“Te Babylon, Babylon; tete Chaldaeae tyranne Arguo: at in
psalmis te, Deus alme, cano.” - C 1.
“Ó Babilônia, Babilônia, eu te argúo; eu te argúo, ó tirano da Caldéia; mas a
ti, ó Deus benigno, eu salmodiarei.”
Habacuc, o oitavo dos profetas menores, encerra a
série dos profetas de Congonhas. Situa-se em posição equivalente à de Abdias, no
ponto inferior do arco que une os muros dianteiro e lateral direito do adro.
Novamente se repete o padrão tipográfico anteriormente utilizado para
Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel e Jonas. O vestuário de Habacuc é composto pela
mesma sotaina envergada por Naum e Jonas, desta vez acrescida de uma gola cujas
pontas são ornadas de borlas. O profeta traz na cabeça o mais complicado
turbante de toda a série, no qual se encontra um plano superior dividido em
quatro gomos arredondados, com uma cobertura arrematada por uma borla pendente.
A estátua recebeu de Aleijadinho cuidados especiais tanto por sua localização,
quanto por sua execução, onde é mínima a interferência do "atelier".
Profeta Naum
“Expono Niniven maneat quae poena relapsam, Evertendam aio
funditus Assyriam.” - C 1.
“Exponho que castigo espera Nínive pecadora; declaro que a Assíria será
completamente subvertida.”
Na extremidade direita do adro, ocupando o ponto
superior do arco que une os muros externos dianteiro e lateral, encontra-se a
estátua de Naum, o sétimo dos profetas menores.
O tipo físico da figura de Naum é o de um velho de barbas longas, postura
vacilante e faces maceradas. Veste uma sotaina longa, abotoada até a cintura. A
intervenção do "atelier" de Aleijadinho nessa peça aparece de forma evidente, a
começar pela execução do turbante que Naum traz à cabeça. Alguns detalhes, como
as barras ornamentais do manto e a deficiência da articulação geral do conjunto
comprovam essa intervenção, parecendo possível que Aleijadinho tenha apenas
concebido os traços iniciais da estátua.